6.2.13

[Crítica] Django Livre


Sendo o 8º filme dirigido por Quentin Tarantino, Django Livre (Django Unchained, 2012) marca a realização de um antigo sonho do cineasta, dirigir um longa metragem ambientado no Velho Oeste.

E como estamos falando de um filme do Tarantino, é claro que não estamos falando de um filme de Faroeste convencional. ;)

Mas antes de mais nada, eu gostaria de fazer uma crítica à distribuição do filme, especialmente em minha cidade, Campo Grande/MS.

Pois bem, Django Livre chegou ao Brasil no dia 18 de Janeiro de 2013, praticamente um mês de diferença com o mercado Americano. Já não bastasse esse delay de trinta dias, as duas grandes redes de cinema de minha cidade optaram por reservar as salas para Sammy 2 - A Grande Fuga, logo o longa só chegou na cidade UMA SEMANA DEPOIS.

Não bastasse isso, ao verificar os horários do filme, constato que os dois cinemas reservaram pouquissímas sessões para o longa. E mais, enquanto em um cinema havia apenas sessões dubladas, no outro havia apenas uma ÚNICA sessão legendada, sendo essa a que eu escolhi para assistir o filme (e sim, ela estava lotada).

Veja bem caros leitores, eu não tenho nada contra filmes dublados. Inclusive, acho digno que os cinemas destinem horários para sessões dubladas, afinal de contas, existe um público para isso. O que me deixa desgraçado da cabeça é o fato dos cinemas não oferecerem opção de escolha para o espectador. Se vai dedicar horários para versões legendadas, dedique algumas também para a dublada e vice-versa.  E olha que nem vou comentar o fato de estarmos falando de um filme de censura 16 anos...

Enfim, peço desculpas a todos pelas breves palavras. E como vocês estão aqui para saber minha opinião sobre o filme, vamos ao que interessa. :)

"Clint Eastwood?! É...melhor deixar esse procurado para depois!"
O enredo do longa se passa em 1859 na Sul dos Estados Unidos, dois anos antes da grande Guerra Civil onde Lincoln enfrentaria vampiros que daria fim a escravidão nos estados yankees. Na trama, após uma fuga mal sucedida de uma típica fazenda sulista, os escravos Django (Jamie Foxx) e sua esposa Broomhilda (Kerry Washington) são brutalmente castigados e logo em seguida, são colocados a venda separadamente.

Enquanto era transportado para seus novos donos, o grupo de escravos onde Django se encontrava é surpreendido com a chegada de um caçador de recompensas alemão, Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Por conhecer os bandidos procurados por Schultz, o escravo é "comprado" pelo caçador de recompensas e ambos firmam um acordo: caso ele ajude o alemão a reconhecer seus alvos, ao final da caçada ele seria alforriado pelo alemão. Com a promessa de ser um homem livre, Django inicia sua jornada ao lado do Dr. King Schultz. Ao conseguir a sua liberdade, o ex-escravo tem um único objetivo em sua vida: resgatar a sua amada Broomhilda, mesmo que ele tenha que viver um inferno para isso.

Django Livre é o segundo filme de uma "revisão histórica" iniciada pelo cineasta em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009). Se no primeiro tínhamos um grupo de judeus enfiando a porrada em nazistas, agora temos um caçador de recompensas negro metendo bala em escravocatas sulistas e tornando-se assim um símbolo em meio a época de escravidão. E da mesma forma que era renovante ver grupo do Gen. Aldo Raine (Brad Pitt) tendo sua revanche contra os nazistas, assistir Django acabando com os escravistas é tão bom quanto. É o cinema mais uma vez se vingando das injustiças históricas.

Como já é de conhecimento popular, Tarantino costuma trazer para seus filmes elementos presentes em outras produções. Em Django Livre, o cover do Samuel Rosa ele pega emprestado elementos vindos do Western Spagatti - produções como Três Homens em Conflito (The Good, The Bad and The Ugly, 1966) e o Django (1966) original (estrelado por Franco Nero que, faz uma ponta no longa) - e elementos da Blaxploitation, já utilizados pelo cineasta em Jackie Brown (1997) e Pulp Fiction - Tempos de Violência (Pulp Fiction, 1994).

"Seu nome é Django? Que coincidência, o meu também!"
Além das "homenagens", o longa ainda conta com os elementos que consagraram a carreira do diretor, como os grandes diálogos, a originalidade do roteiro, o humor negro e a violência estilizada (em outras palavras, aquelas cenas de violência que de tão absurdas chegam a ser engraçadas). O resultado final só não é 100% positivo devido a um trecho do segundo ato do filme que acaba se arrastando um pouco, mas nada que atrapalhe o espectador de se divertir, função que o filme cumpre com maestria. :D

Outro grande trunfo de Tarantino é na escolha de sua trilha sonora. Grande fã do maestro Ennio Morricone, ele já chegou a incluir algumas obras do maestro italiano em Kill Bill - Volume 2 (2004). Para seu faroeste, Quentin novamente presta um tributo a Morricone, inserindo em composições como The Braying Mule, Sister Sara's Theme e Un Monumento. Já composições como His Name Was King, Django, La Corsa, I Got Name, To Old to Die Young, Unchained provem de outros filmes de faroeste e da coleção pessoal de vinis/cds do próprio Tarantino.

Para o longa metragem recebeu quatro canções originalmente produzidas para sua trilha sonora: Freedom interpretado por Elayna Boynton e Anthony Hamilton, 100 Black Coffins do rapper Rick Ross, Ancora Qui de Elisa Toffoli e do gênio Ennio Morricone e Who did That to You de John Legend. A primeira vista, pode soar estranho termos composições vindas da soul music e do rap em um longa de faroeste, mas Quentin consegue introduzir as canções de forma tão natural que é impossível não curtir.

Durante as filmagens, houve um certo burburinho devido a saída de membros do elenco como Sacha Baron Cohen, Kurt Russell, Kevin Costner e Joseph Gordon-Levitt. Mas depois de assistir o filme, acredito que a produção não perdeu absolutamente nada com a saída desses quatro atores. Primeiro pois todos fariam apenas participações especiais. E segundo pois outros quatro nomes praticamente roubam a cena: Jamie Foxx, Samuel L. Jackson, Leonardo DiCaprio e Christopher Waltz.

"Quer mais uma taça de vinho, Sr. Nick Fury?"
Pegando um personagem que originalmente era de Will Smith, Jamie Foxx manda tão bem que até parecia que ele era a primeira escolha para o papel. Como seu Django é um típico protagonista de faroeste, ou seja, não é muito de falar, a construção de personagem acaba sendo muito mais físico, algo que Foxx tira de letra. Basta ver um gesto ou um olhar de ator para saber exatamente o que o seu personagem está pensando.

Mas da mesma maneira que em Bastardos Inglórios, quem mais uma vez rouba a cena é o fodaço Christopher Waltz. Se o seu Hans Landa era um cara adoravelmente filho da puta, o seu Dr. King Schultz é o cara que você gostaria de ter como amigo. Além de possuir uma química perfeita com Jamie Foxx, todas as cenas onde o seu Dr. Schultz, um culto caçador de recompensas alemão, tenta travar diálogos inteligentes com pessoas burras pra caralho ignorantes são impagáveis. Se Waltz - que já levou mais um Globo de Ouro para casa - receber o Oscar pelo personagem, será justíssimo!

Vivendo o seu primeiro vilão, Leonardo DiCaprio mostra mais uma vez que é um grande ator. Como o fazendeiro escravocata  Calvin Candie metido a intelectual, DiCaprio entrega as telas um vilão que apesar de parecer apenas um almofadinha sádico, em questão de segundos pode se tornar um sujeito cruel e desequilibrado. A cena onde seu personagem faz praticamente um monólogo na mesa de jantar é impressionante. 

Por fim, a última aresta deste quadrado mágico é composta pelo querido Samuel "Motherfucker" L. Jackson. Parceiro de Tarantino desde Pulp Fiction, Jackson faz as vezes como Stephen, o criado puxa-saco de Candie. Extremamente racista e falastrão, Stephen usa de sua fragilidade física para disfarçar o seu principal papel, o de mente pensante de seu patrão. Dono de diálogos politicamente incorretos e divertidos, Jackson entrega uma atuação emblemática.

Calvin Candie ensinando seus empregados a como empunhar um martelo.
Apesar de fazer parte do elenco principal, a única tarefa que é exigida de Kerry Washington é de ser a mocinha em perigo, papel que ela faz muito bem. Tanto que em todos os momentos em que ela aparece sendo maltratada pelos vilões, não tem como não torcer para Django enfiar uma bala na cabeça de seus opressores. Além disso, convenhamos, aquela cena final onde ela aparece montada em um cavalo, ela está divina. ;D

O longa  ainda conta com um grande número de participações especiais. Jonah Hill (aka gordinho do Superbad) aparece como membro de um proto Ku Klux Klan (uma sequência hilária por sinal :D). Don Johnson também faz uma rápida aparição como o fazendo Big Daddy (ou Paizão, segundo a legenda da minha sessão). James Remar (o papai do Dexter Morgan) faz dois vilões, Butch Pooch e Ace Speck. O próprio Tarantino faz uma rápida e marcante ponta no terceiro e último ato do filme. E por fim, ainda temos a participação mais do que especial do Django original, Franco Nero, promovendo o encontro entre os Djangos.

Enfim, Django Livre pode não ser o melhor filme de Quentin Tarantino - no meu caso, o meu favorito ainda é Pulp Fiction - mas é ainda sim é um puta de um filmaço que merece ser visto e revisto.  Inclusive, eu gostaria aqui de deixar o seguinte apelo: "Por favor Tarantino, chame novamente o  Christopher Waltz para seu próximo projeto".

Os cinéfilos agradecem!

Nota: 9,5

PS: Existe uma rápida cena pós-créditos. É bem curta, mas engraçada. ;)

PS2: Sobre a polêmica envolvendo o Spike Lee, bem...eu não vou perder tempo com um cara que crítica um filme sem ter visto. =P


Ficha Técnica

Django Livre (Django Unchained, 2012)
Faroeste | Aventura | Drama

Direção: Quentin Tarantino.

Roteiro: Quentin Tarantino.

Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Ato Essandoh, Sammi Rotibi, Laura Cayouette, James Remar, David Steen, Walton Goggins, Dennis Christopher, Don Johnson, Jonah Hill, Zoe Bell,  Franco "Real Django" Nero e mais uma renca de gente.




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